poema da inexistência

minha alma tem asa
de borboleta etérea
que pulveriza o arbusto
da flor inexistência
uma folha pequena cai sob a teia
outros verões me distraem
a aranha tece seu muro
e tinge o que desintegra
é latente o que não existe mais...

claudia almeida


flor de índio

nasce o índio
à flor da aurora
raiz de índio
e do idílio.

claudia almeida


nós na água

para comer a baleia do sertão
come-se o oceano
um bushido
em morte lenta come-se Bashô
come-se um sushi 
e nós na água florida

claudia almeida



vinde o natal

dai-me graças
somos feitos de espíritos e sede
e de sóis invisíveis
crucificados na cruz de todo dia
os inocentes
dai-me graças
somos feitos de solstícios comum
e desgraça
ressuscitados em outro país
na doença e no desespero comemorados.

claudia almeida



ranhuras negras 

com tecituras nos olhos
e máscara na boca
vendem-se corpos em prostíbulos
em todo país
escravos foram jogados ao mar sem pensar
um mergulho com algodão à venda
uma onda quebrada na face
quanta luz em meus olhos
e peixes coloridos de encanto
orfeu luminoso em água parada
ó negro contra o tempo
tão longe do céu e do alicerce 

claudia almeida



corvo
sonho com seus olhos
olhos de dormir
no inverno das águas
na maciez do nosso corpo
abrindo a noite como um corvo.
claudia almeida


céu de estrelas

na noite a paragem uma alegria
o céu que se abre aos olhos
é de estrelas cadentes. 

estrada

a seca matou a estrada
árvores, o que vive
são as estrelas. 

claudia almeida




metade nada

o que fez a pedra do índio brotar?
índio anda no mar, no rio
na floresta
se serve na trilha
espírito em água
a pedra é nhanderú aos mortos
hoje a máscara metade é o pensamento
e a outra, esconde a malha do peixe.

claudia almeida



olhai o lírio no deserto

com um lírio plantado no meu corpo
sou filha do deserto e areia
olhai o lírio no deserto
do campo sem flor, olhai
olhai a tristeza que nasce
olhai o lírio branco.

claudia almeida